Bom dia Fernanda,
Vou compartilhar com você algumas idéias e pensamentos porque acredito que essa discussão possa vir a servir para alguma coisa, não sei bem para que, talvez apenas um desabafo lingüístico, tecnológico, psicológico.... mas aí vai. Desde pequeno sempre me peguei tentando achar padrões nas coisas, desenhos nos ladrilhos, palavras no meio de palavras, ritmos em barulhos de máquinas ou no pingar de uma torneira! Uma coisa chata, principalmente quando passei a dar palpite no trabalho das pessoas. Virei consultor, administrador e especialista em sistemas de informação e pronto, metodologias viraram o meu maior prazer. Sempre achei muito desconfortável fazer coisas sem identificar a lógica, a razão, a organização estrutural, a raiz da ação. Só um retorninho ainda ao passado, me lembro nitidamente quando meu pai fez um comentário sobre um outdoor que ele tinha visto e que tinha umas letras “daquelas que significam várias coisas juntas” ele falou. Eu devia ter uns dez anos e parei tudo que estava fazendo, queria saber o que eram, como eram, como poderia uma letra significar mais do que uma parte de uma palavra, bom, ele explicou, eu não entendi e ficou a curiosidade, acho que ele falava de ideogramas, mas veja como isso sempre me incomodou! Há uns vinte anos atrás eu trabalhava na Arthur D. Little aqui no Brasil e recebemos o Sr. Paul Jones, um especialista em desenho de banco de dados e nos apresentou sua metodologia desenvolvida juntamente com o Bob Curtice, que ainda está na ativa aí em Boston. A metodologia chamava-se ADM Associative Data Modeling e era utilizada para o desenho de bancos de dados corporativos junto com pessoal não técnico. Utilizava uma notação muito simples, apenas com quatro ou cinco elementos gráficos, de fácil compreensão para os participantes das sessões de trabalho. Você pode imaginar que virei o especialista nisso depois que ele foi embora. A metodologia é simples e brilhante e até hoje, quanto tenho que explicar um sistema um pouco mais complexo em suas conexões e relacionamentos entre dados e informações, uso a metodologia. Particularmente me encantava a possibilidade de generalização que utilizávamos no modelo de dados. As estruturas de dados geradas poderiam ser utilizadas para conter informações (dados e atributos) de diferentes naturezas e principalmente compará-los através dos tempos. O exemplo que Mr. Paul Jones deu em uma das sessões me marcou muito. Perguntado se ele já tinha feito projetos semelhantes nos Estados Unidos, ele disse que tinha sido contratado pelo governo dos EUA para desenhar um banco de dados de monitoramento do clima no mundo. Parecia simples, mas o desafio estava em montar um repositório de dados para 100 anos, capaz de guardar informações que seriam geradas por instrumentos de medição que ainda não existiam que deveriam registrar parâmetros que ainda não tinham sido descobertos. Fantástico, mas com a suam metodologia de sistematização do conhecimento e discussão das raízes e estrutura da informação tudo para ele era apenas mais um Case! Outro momento interessante do passado não tão distante foi quando assisti ao filme Operação Pelicano, você deve lembrar com o Mel Gibson e Julia Roberts. A loucura do Mel à procura de informações nos jornais, tendências implícitas, códigos, etc. tudo me pareceu muito familiar. (mudo de pista) Veio a internet e com ela uma discussão com os provedores de acesso aqui no Brasil. Porque não era possível ter um IP fixo? Era muito mais caro, apenas um provedor oferecia, mas viabilizava eu ter o meu próprio site. Eu brigava na verdade pela possibilidade de aumentar a autoria na internet. Dez anos atrás eu imaginava que seria ótimo qualquer um poder ter seu próprio site, publicar suas idéias, compartilhá-las e receber contribuições dos amigos e interessados nos assuntos publicados. Nem precisou do IP fixo não é, as redes sociais, os blogs pessoais são uma realidade e estão presentes na vida das pessoas de uma forma irreversível, apresentando ao mundo de forma concreta a diversidade e riqueza do conhecimento guardado em cada indivíduo. Passei a usar o Orkut e fiquei muito impressionado em poder conhecer uma pessoa pelas comunidades que ela pertence. Nesse formato conseguimos transformar um teste psicológico que anteriormente só profissionais conseguiriam analisar, num instrumento que favorece o estabelecimento de relacionamentos, o instrumento é indireto, o resultado se dá por analogia. Da mesma forma as fotos passaram a representar sinais concretos das perspectivas que aquele novo amigo poderia trazer seja lá qual for o interesse ou o ângulo que se observa. O rol de fãs representa as indicações do observado, referências que para serem consideradas também precisam ser interpretadas, e os recados um fluxo de atenções e predisposições do candidato a amigo. Impensável descrever tão profundamente alguém dessa forma há uns anos atrás, concorda? Isso sem pensar na quantidade de suposições e até mesmo fatos que podem ser extraídos de uma página como essa, provenientes dos repertórios de cada observador. (mudo novamente) Pulamos para três meses atrás, entrei no Twitter! Tinha que saber o que era isso que os meus filhos dedicavam tantas horas por dia. Pedi uma consultoria técnica para eles, e fiquei sabendo o que eram os retweets, os mentions e os DM. Decidi criar um personagem que brincava com as frases e comportamento das pessoas e para isso decidi seguir pessoas. Hoje sigo mil e quinhentas e me seguem quatrocentas e cinqüenta. Olhando a tela do Twitter, de repente, como um estereograma que vai se revelando, vislumbro um mundo passando nos meus olhos, tendências de assuntos brotando na tela, grupos de pessoas que se organizam em função de factóides e sobre eles desenvolvem teses e revelam seus próprios padrões de comportamento, os que gostam, os que odeiam e os que nem sabem o que é aquele assunto. É incrível poder perceber padrões de linguagens, sotaques até, tudo ali desfilando na linha do tempo. Ondas de assuntos em sintonia com o que está passando na TV, com o calendário, com o resultado dos jogos de futebol, com a aparição das celebridades, com as descobertas científicas e muito mais. Vem à minha cabeça a cena do Matrix em que o rapaz olha para a tela ininteligível e pode perceber a movimentação dos Avatares dentro do sistema, nem preciso falar do filme Avatar e do movimento de virtualização das nossas vidas, não é? Isso daria um outro texto. Foi assim que pude compreender a decisão da Biblioteca do Congresso americano de guardar os dados do Twitter integralmente desde 2006. Para alguma coisa isso irá servir também tenho certeza. Voltando ao projeto no Twitter, participei da mobilização de mais de um milhão e seiscentas mil pessoas através dessa ferramenta integradas a redes sociais e blogs a favor do projeto #fichalimpa, um projeto que tramitava no Congresso Nacional que impede a candidatura de políticos com a ficha suja, padrão nacional como você sabe. A mobilização foi rápida e efetiva. Passou na Câmara e no Congresso, sem mudanças no projeto original. Imagina alguém votar contra? Seria confissão pública de culpa! Acredito sinceramente que propiciamos uma transformação intencional do futuro, mudamos uma tendência, mudamos os fatos no futuro. Isso tudo me leva a relembrar uma espécie de visão ou revelação, dependendo do credo, que tive há uns anos atrás. Perguntado por um dos meus filhos sobre como o futuro poderia ser previsto, me veio uma imagem de um tubo, formado por paredes de cristais, vidro translúcido colorido, mozaico de cores, como um vitral de igreja. Pedaços unidos uns aos outros ao longo do túnel irregular, que vai se completando dependendo das formas que vão se anexando no decorrer do tempo. Quanto menores os pedaços de vidro, ou possivelmente mais fortes e rígidos eles são, quando anexados, fazem todo o tubo se virar para sua direção fazendo com que outras formas complementares sejam anexadas adaptando-se e mantendo a integridade do tubo sem nunca ficar sem preenchimento. Disse ao pequeno, o futuro é uma construção de um tubo a partir da nossa decisão de qual peça incluir, se tivéssemos uma capacidade computacional tremenda ou um sentido aguçado de percepção do peso dos fatos atuais e sua capacidade de implicação nas tendências futuras, certamente poderíamos prever algumas placas de vidro que precisarão ser colocadas no túnel ou até mesmo aonde é que o túnel vai dar. Matemática, lingüística, design gráfico, tecnologia da informação ...tantas ciências, certamente a previsão do futuro está em nossas mãos, cada um deve ter seu próprio tubo colorido e todos fazemos parte de alguns tubos que certamente poderemos prevê-los e mudá-los. Como a evolução tem demonstrado as respostas estão aqui mesmo só precisam ser conectadas corretamente.
Bom, meu filho não entendeu nada e falou, será que você poderia desenhar?
(Texto escrito para Fernanda assim que li um artigo dela na revista Época que mencionava sua especialização na área de representação gráfica de dados e informações)
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